Pesquisa-ação


O Brasil como um todo passou, nas últimas décadas, por um período de transição  demográfica e epidemiológica. Junto com o envelhecimento da população, os indicadores de   morbimortalidade por doenças infectocontagiosas sofreram reduções importantes, ao mesmo   tempo em que as doenças crônicas não transmissíveis - DCNT cresceram significativamente.   Hoje as doenças cardiovasculares são a principal causa de óbitos na população. Este   crescimento das DCNT está diretamente relacionado ao aumento do percentual de brasileiros   com excesso de peso (sobrepeso ou obesidade), sendo este agravo nutricional associado à alta   incidência de doenças cardiovasculares, câncer e diabete mellitus.

Se para o conjunto da população brasileira o fenômeno da transição epidemiológica é   verdadeiro, pouco se sabe a respeito do que ocorre entre os povos indígenas. Ao mesmo   tempo em que encontramos uma população jovem, na qual, as doenças infecciosas e   parasitárias ainda representam uma grande presença na morbimortalidade, um aumento   significativo das doenças crônicas não transmissíveis vem ocorrendo simultaneamente,   gerando uma dupla carga de doenças. Dados isolados sugerem que, à medida que os   povos indígenas intensificaram seu contato com o mundo urbano “ocidental”, as mudanças   observadas no estilo de vida tradicional (hábitos alimentares, acesso regular aos alimentos e   grau de atividade física, em especial) repercutiram, de forma negativa, em suas condições de   saúde. Casos de excesso de peso, hipertensão arterial, dislipidemias, intolerância à glicose e   diabetes mellitus, raros ou inexistentes há décadas, aparecem relatados na literatura atual   com frequência semelhante ou maior do que aquela observada entre a população brasileira.

 

Dados recentes mostraram que, entre os povos indígenas que habitam o Parque Indígena do  Xingu (PIX), as prevalências de excesso de peso, obesidade central e dislipidemias são todas   maiores que 60% (superiores as   observadas para a população   brasileira como um todo), e que pelo   menos 15% desses indivíduos já   apresentam algum grau da síndrome   metabólica.   A introdução da alimentação   industrializada nas áreas indígenas é   uma realidade e o aumento de seu   consumo tem se constituído um   desafio frente ao avanço das doenças crônicas não transmissíveis entre essas populações.

 

No Xingu não tem sido diferente, depois do contato com os não-índios, a alimentação vem  mudando de maneira gradual, porém constante. Com o assalariamento de alguns indivíduos e   o recebimentos de benefícios sociais a entrada de comida da cidade nas aldeias tem crescido   nos últimos anos. Os alimentos não tradicionais mais encontrados no parque são: sal, óleo   de soja, arroz, feijão, macarrão, extrato de tomate, café, açúcar, sucos artificiais, biscoitos,   refrigerantes, entre outros. Em algumas famílias esses alimentos, que em geral são de baixo   valor nutricional, estão passando a ser consumidos em maior quantidade do que os alimentos   tradicionais.

 

Preocupados com esta situação,  algumas comunidades têm   solicitado ajuda à equipe do   Projeto Xingu para a realização   de ações de educação em saúde,   oficinas de culinária e avaliação   da comunidade com relação às   novas doenças que estão   aparecendo nas aldeias, para   entender melhor como elas   acontecem e como estão   relacionadas às mudanças no   modo de viver. Ao mesmo tempo buscam a revitalização de pratos de sua culinária tradicional   e o aprendizado do uso correto dos alimentos da cidade.

 

Essas atividades têm sido  realizadas junto às comunidades   e às Equipes Multidisciplinares   de Saúde Indígena (EMSI) do   DSEI Xingu e são norteadas pelo   método da Pesquisa-ação.

Uma das propostas para o enfrentamento destas novas doenças são as oficinas culinárias.  No momento da ação são realizadas duas oficinas, uma de culinária indígena e outra não- indígena.

 

 

A oficina culinária indígena é um momento muito importante para a valorização da   alimentação tradicional, onde muitas receitas e ingredientes que, por ora, estavam esquecidas   são revitalizadas. Para a realização da oficina, toda a comunidade se mobiliza, planejando   primeiramente os pratos que serão oferecidos. Geralmente os homens saem para caçar e   pescar, enquanto as mulheres trazem alimentos da roça. Os pratos são feitos coletivamente   e toda população da aldeia se envolve no preparo. Depois de prontos, os alimentos são   dispostos em uma grande mesa e servidos para toda comunidade e equipe, que podem então   se deliciar.

 

A oficina culinária não-indígena tem o intuito de apresentar as regras de uso dos ingredientes,   principalmente em relação a quantidade de sal, açúcar e gorduras, além de mostrar receitas   variadas utilizando alimentos da cidade que são saudáveis e também acessíveis, como frutas,   legumes e verduras. Neste momento, toda a comunidade também se envolve no preparo das   receitas, que são compartilhadas entre todos.

 

 

Algumas receitas

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