Quando os cocares se unem

 

Foi no Clube Hebraica, no Rio, em 3 de abril de 2017, que o deputado Jair Bolsonaro, em palestra infame, prometeu acabar com todas as reservas indígenas e quilombolas caso fosse eleito presidente.

 

 

Em 2019, nesta terça-feira, 23 de julho, em prédio com formato inusitado, que conota o livro sagrado Torá, o  antigo Centro Cultural Judaico , agora Unibes Cultural, em São Paulo, entre cocares dos índios Guajajara, onde muitos se reuniram para ouvir os indígenas, resistir às ameaças insanas do presidente. Acreditam nos institutos, nos conselhos, nas universidades e na inteligência.

 

 

Povos indígenas isolados na Amazônia brasileira, de repente, inundam a ideia na cidade. Se há cercos e resistências nos rincões, é no sertão dessa gente de metrópoles que forma-se uma rede de apoio, consciência, ciência do saber, mais do que nunca necessária à nação de governo cego.

 

Tantos querem saber o que acontece na terra vasta do país e os olhos daqui não veem.  Dizia o padre Antônio Vieira, perdem-se as repúblicas porque os seus olhos veem o que não é, não veem o que é.

O lançamento do livro Cercos e Resistências: Povos indígenas isolados na Amazônia, e o documentário Ka’a zar ukyze wà – Os donos da floresta em perigo, que apresenta o encontro inesperado de um grupo de Guajajara, na Terra Indígena Araribóia, com isolados Awá-Guajá que compartilham o mesmo território, revela a todos nós a delicadeza e persistência desse povo oculto nas matas.

 

 

O que diz o olhar do jovem Awá-Guajá, sua visão surpresa de nós, a nos enquadrar na tela de cinema na metrópole? Há profundo silêncio no auditório lotado, há um silêncio quase eterno na floresta distante que assistimos.

A arte de viver e nossos assombros. 

Nosso gigante adormecido e a mão feroz que acolhe ou estrangula. Apesar de tudo, ainda cantam e dançam esses povos.

 

 

 

 

 

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